28.3.07

DIA MUNDIAL DO TEATRO

Foi no passado dia 27 comemorado mais um dia mundial do teatro.


Para fugir à banalidade de falar de uma peça em exibição, do estado geral das artes teatrais ou de representações particulares, optámos por divulgar a nossa modesta opinião sobre um dos mais belos espaços cénicos da nossa cidade de Lisboa.

Começaremos por vos dizer que fica localizado em Xabregas, datado do Séc. XVII, era a Igreja do Paço Real, mandado construir pelo Rei D. João IV, no entanto, a estrutura actual reporta-se à igreja que aí existia do Séc. XVIII e que fazia parte do Convento dos Franciscanos.
Mas mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e com a instauração da República foi vendida e passou a integrar a parte da Fábrica de Tabacos que funcionava nesta zona.

Actualmente, está adaptada a local de espectáculos, mais propriamente, um teatro bastante amplo, com uma plateia com 169 confortáveis lugares e




um palco de tamanho considerável, onde todos os recantos têm uma magia muito especial.





Logo na entrada, onde fica localizado o bar e a bilheteira, com os seus painéis de azulejos tipicamente portugueses


que continuam pelo foyer, enquadram um ambiente onde se respira o cheiro da história.


Passando finalmente à sala propriamente dita,


temos os anjinhos originais a receber o público, ficando o palco localizado onde outrora foi o Altar-mor.
Um espírito de paz e de transcendência que se sente numa ambiência solene tão curiosa nestes espaços cénicos.

As condições acústicas são óptimas.


Acolhe há alguns anos o Teatro Ibérico que, apesar de não ser financiado pelo Ministério da Cultura, têm regularmente em cena peças interessantes, de momento está em cena “As Fadas Também Morrem” que trata a intrigante problemática da eutanásia, e todos os anos aí se realiza o Festival de Danças Tradicionais, que ocorreu há duas semanas.

Aconselhamos vivamente uma visita ao local, verão que se não arrependem, aproveitem para ver uma peça sobre um tema sempre actual.

20.3.07

15.3.07

ANIÑANDO

Um espectáculo curioso, cativante e encantador.


Seduz-nos desde a primeira cena: uma conversa entre duas velhotas muito engraçadas que nos contam histórias de vida, episódios engraçados e ridículas impressões de diversas existências.
Duas idosas solitárias, ambas latinas encontram-se num café de uma cidade, que é Lisboa, mas que poderias ser outra qualquer, reconhecem uma na outra traços de solidão empática, a cumplicidade que se pressente de imediato entre iguais, como jovens de pensamento que se afirmam, logo decidem partilhar a intimidade: vão morar juntas.

Com recurso a artefactos da comédia dell’arte como as máscaras humanas que lhes sublinham a idade, ou a bibelots lindíssimos, pequenos pormenores de um grande bom gosto temos o cenário perfeito para que ali se contem evidencias nada explicitas, para que se brinque com a transcendência, para que se demonstre a importância do passar dos tempos na vida de alguém que saiba a importância da partilha de sensações.


E assim se passam os dias sucedendo as noites, sempre idênticos entre si, mas eis que num dia tão diferente: o da nossa presença chega o carteiro com a notícia fatídica da morte de uma delas.

Espanto, incredibilidade, choque: a morte que não se anuncia nem pede licença para entrar, simplesmente invade o cenário e com ela traz lembranças, recuerdos, saudades, imagens de um tempo que não recua.


Duas actrizes e uma encenação, também feminina, a cargo de Sofia Cabrita reportam-nos para um universo eminentemente intuitivo, cuidadoso com os pequenos nadas, bem disposto e verdadeiro.



Comunica-se com o público por sorrisos e expressões únicas e fala-se de tudo um pouco: o sal que apimenta a vida.

NÃO PERDER

No Teatro da Trindade até 1 de Abril, de Quarta a Sábado às 22h00m Domingo à 17h00m


11.3.07

A MORTE DE DANTON NA GARAGEM


O teatro da garagem, sito no Taborda apresenta-nos desta vez uma peça clássica de Buchner, escritor dramático oitocentista que neste texto analisa o regime do terror, época posterior à Revolução Francesa.



Através do pensamento de figuras por demais conhecidas, como o enciclopedista, mas também o incorruptível Robespierre e o diletante Camillo desenrolam-se intrigas políticas e discorre-se sobre a nova refundação nacionalista do país hexagonal na republica num momento de radicalização revolucionária que a todos levará à guilhotina.




“Os mortos jogam às cartas com os médicos” do outro lado da vida, do espelho – abre-se a peça num prenúncio de morte em ambiente para-hospitalar que recebe os espectadores.


Passamos depois ao espectáculo propriamente dito, em jeito de arena, Carlos Pessoa numa opção arriscada levantou toda a plateia da sala e dispõe os espectadores numa roda dentro da qual os actores representam.

Com um leque de muito bons actores, durante quase duas horas temos teatro.
Danton o homem político, moderado e a sua trupe, que o apoia mas que discorda de algumas condutas: o ambiente nocturno de rameiras e vinho verde, o empobrecimento físico e espiritual da sociedade de bem pensantes.


Camilo o elo de ligação, não só na amizade que o liga ao iluminista, mas também na camaradagem advinda dos tempos escolares com Robespierre.




O universo da peça reporta-nos aos tempos revolucionários com ligações insuspeitas à época que vivemos hoje.
Entre virtudes públicas e vícios privados, ambiências teatrais e a vida da rua, o palco ideológico e a praxis corrompida, de resto tudo temas insertos no texto original que foi seguido irrepreensivelmente.




Pessoa a brincar aos teatros uma opção do teatro dentro do teatro onde há um lugar privilegiado do encenador dentro da peça – o alter-ego do encenador propriamente dito – as suas angustias, as questões metafísicas, as opções cénicas, a direcção de actores,
há lugar para isto e muito mais nunca espectáculo extraordinariamente rico em boas representações individuais, no ritmo que os actores enquanto conjunto lhe imprimem, nas luzes bem estudadas, num jogo interessante de figurinos, nos objectos de cena em que - característica imanente da Garagem sublimam o grotesco que chega a chocar o espectador, direitinho, arrumadinho, acomodado na sua burguesia – e questionam sempre as vidinhas e as futilidades do dia-a-dia!


Uma palavra para sublinhar, mais uma vez os rasgos de teatro que os actores, todos e cada um, imprimem no espectáculo: os “garagianos” Ana Palma, Fernando Nobre e Miguel Mendes pela qualidade de trabalho a que já nos habituaram e as aquisições últimas: Carla Bolito, magnifica, Célia Jorge, Cláudio Silva, Diogo Bento, Miguel Damião e Miguel Matias em registos muito interessantes.


Venham ver!
No Teatro Taborda até 25 de Março, de Quarta a Domingo à 21h30.